terça-feira, 13 de setembro de 2011

Fogos de artifícios (baseada na música "Firework").

A mocinha andava apagada. Seguia seus passos. Cabisbaixos. Era assim por conta de uma deformidade: no meio do peito carregava uma elevação. Tinha vergonha. Escondia. Recuava. Disfarçava num maxilar forçado. Mas não sorria. Pesava. E desviava. De espinhos, pregos e dedos. Não conhecia rosas. Não conhecia retratos. Não conhecia toques ou afetos. Tinha curiosidade mas... medo: chorava pra dentro, gritava pra dentro. Até sorrir! É, ela sorria pra dentro. E a bola no peito, cada vez maior, pesava. E ela se encolhia. Se equilibrava (ao menos, tentava). Era muito pesado aquele seu mundo. Sofrido. Cruel. E entre uma curva e outra, eis que a visão é ofuscada por tamanho brilho. Tropeça. E, assim, aprende a levantar. Abre os olhos. E, assim, tenta enxergar. O rapaz lhe sorria. E lhe iluminava. O medo vindo de novo... mas já o experimentava há tanto tempo... Que tal a curiosidade?  É que o dedo dele a tocava. Fundo. No peito. Abria uma chaga. Que explodia em fogos de artifícios. E a cidade toda, iluminava.

No playlist toca: "Quermesse", (O Teatro Mágico).

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Rara.

Ecoa! Segue o seu riso dominante. Com essa alegria confiante. Inabalável liberdade. Abraça. Acolhe utopias e feridas, resgata lembranças adormecidas. Transforma tuas mágoas em águas passadas. Exala toda a fé contida. Passeia pela vida. Ri de escorregões. Sequestra abraços, invade corações e pula os portões. Mistura dentro e fora. Seja a própria obra. Faça sua arte. Pinte o sete e a ninguém revele o segredo do arco-íris, que além vai encontrar. Com-paixão, recolhe o sofrimento e livra dos tormentos, entre-linhas à brincar. Segue a reta mas nunca siga à risca, moça tão arisca. Você vai alcançar. Felicidade já é tão bem vinda. Abre o peito e dá, de dentro pra fora. Pra multiplicar.

Minha casa abandonada.

No final da rua tem uma casa. Abandonada. Escura. Empoeirada. Não me atrevo a ir lá. Se passo por perto, logo quero me afastar. Os arredores são cercados de enfeites, virtuosismos. Distrações. Apagada: a luz queimada desde o último inquilino. Saiu expulso. Arrancado de um lar que não lhe pertencia. E deixou tudo bagunçado; quinquilharias empilhadas que levaram anos pra serem retiradas. Ainda acham resquícios, catam as sobras. Mas logo jogam fora. Foi uma mudança longa. Levou-se um caminhão de lembranças... Foi trancada por dentro e a placa "Aluga-se", substituída por "Indisponível". Nada habita. Não chego a ir lá. Observo. Tento tomar coragem pra me aproximar. E se doer? Se saltar um monstro com dentes e garras? Se ele me arranca daqui e me leva pra lá? Não posso. Não tento. Não penso. E fujo. Só-corro! Minha corrida retrocede, sonho. E se procuro, não acho. Estanco.  Pé ante pé. Ando. Paro. Adentro. Me perco e lá dentro, me encontro.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mãe menina.

O coração cresce até parir amor. Busca em sorrisos encantados. Teu abrigo. Engole o mundo. Vira barriga. Nove meses pra gerar. 365 dias pra girar. Dá a luz. Força, puxa, empurra, respira. Inspirando vai. Ama. Mãe sem filho que adotou o mundo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Contos de fadas.

Embora sua trança vermelha despencasse lá de cima, não ousava descer daquela torre. Enxergava o mundo através das lágrimas, espelho da autocrítica, medo. Desvelo. Zelo? A coragem ficava guardada dentro de uma caixinha de tocar; ora aberta, ora escondida. Nunca movida. O vento batia mas ela não deixava entrar. Algumas vezes, os fantasmas fotografados em seu mural, pen drive e camarfeu, vinham lhe assombrar. Não permitia medrar, não permitia recuar. Mas não ia adiante. Não se movia. Estabilizou num momento que não recordava mais, que não buscava. Abria os braços em prece. Talvez alguem escutasse seus murmúrios tão tímidos, tão tristes, tão recordáveis. Entre gavetas, recortes, cadernos, se metia. Sabia do mundo e o mundo, dela, não sabia nada. Se sentia injustiçada por não ser buscada, procurada, reivindicada pelo príncipe encantado. Toda noite, o sono eterno vinha lhe visitar. E o beijo do despertar lhe era prometido.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Amputada.

Nasci dali. Ramificada, era uma parte do todo. Crescendo e entrelaçando, sempre erva daninha. Aquela que agarra e prevalece umbilicada. Apoiada naquela raiz, seguia. Velada, adorada, princesa, fotografada. Passo a passo pregava peças, recordações, tatuava afeto. Um amor tão profundo quanto a dor. Que se parte e se soma na divisão. Amor que não se despede. Amor que não deixa. Amor que distancia e aumenta. Amor. A benção de boa noite é substituida pela lágrima. "Benção, meu pai. Deus te abençoe, Santo Antonio te proteja", amém.

No playlist toca: "Da entrega", (O Teatro Mágico).