terça-feira, 20 de setembro de 2011

Saudade é assim: a gente mata uma pra deixar nascer outra.

Saudade é um resquício do que foi bom. Mas se é bom porque dói tanto? Aperta e suspende o ar. Uma vez desisti de ter saudade. Mas ela não desistiu de mim; resolveu me assombrar nas fotos, inbox, horas e ausências. Se impregnou no eco do meu quarto. No oco do meu abraço. Um riso surdo no meu ouvido. E tomou conta de mim. Já não era só eu. Eu também era parte da saudade e ela era parte de mim. Dividíamos a mesma cama vazia, a mesma lágrima sentida, o mesmo suspiro reprimido. A nossa gaveta abarrotada de lembranças saindo pelo ladrão! Procuro. Vasculho. Encontro. Revejo. E parto. Com a saudade. De quem foi, de quem faz parte de mim. De quem faz parte dela. Recorto afetos e colo em mim. Só assim pra maquiar, tentar anestesiar. Levo comigo cada um que a saudade condenou ser sentido. Saudade dói porque é uma presença ausente. E uma ausência presente.

No playlist toca: "Seria o rolex", (Móveis Coloniais de Acaju).

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Papo de boneca.

Mas não procure muito que você vai achar. Um remendo, botão fora do lugar. Não sou perfeita e tenho garantia. Não adianta querer trocar. Não é defeito de fábrica. Simplesmente sou. Não adianta querer me comprar. Simplesmente estou. Não vai muito além, não. Você pode encontrar um coração. É que essa boneca é diferente: não gosta que brinquem com ela. Quer amigos, quer família, quer estrelas e utopias. Não tem dono. Ama, odeia, chora, vive. E se fascina. Descobre e reconhece. Não escolhe. Só tem fé e paciência pra continuar. Se puxar, me arranca um braço. Se forçar, destroça uma perna. E seu eu acabar perdendo a cabeça, não vai dar mais pra gente brincar. Não sou santa , nem diaba. Gosto apenas de voar. Se você remexe muito é porque nunca me amou. Então sigo colecionando meus afetos, costurando quem eu sou.

No playlist toca: Medo da chuva, (Raul Seixas).

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Fértil.

Deus! Meus dedos estão mais rápidos que a imaginação...

Fogos de artifícios (baseada na música "Firework").

A mocinha andava apagada. Seguia seus passos. Cabisbaixos. Era assim por conta de uma deformidade: no meio do peito carregava uma elevação. Tinha vergonha. Escondia. Recuava. Disfarçava num maxilar forçado. Mas não sorria. Pesava. E desviava. De espinhos, pregos e dedos. Não conhecia rosas. Não conhecia retratos. Não conhecia toques ou afetos. Tinha curiosidade mas... medo: chorava pra dentro, gritava pra dentro. Até sorrir! É, ela sorria pra dentro. E a bola no peito, cada vez maior, pesava. E ela se encolhia. Se equilibrava (ao menos, tentava). Era muito pesado aquele seu mundo. Sofrido. Cruel. E entre uma curva e outra, eis que a visão é ofuscada por tamanho brilho. Tropeça. E, assim, aprende a levantar. Abre os olhos. E, assim, tenta enxergar. O rapaz lhe sorria. E lhe iluminava. O medo vindo de novo... mas já o experimentava há tanto tempo... Que tal a curiosidade?  É que o dedo dele a tocava. Fundo. No peito. Abria uma chaga. Que explodia em fogos de artifícios. E a cidade toda, iluminava.

No playlist toca: "Quermesse", (O Teatro Mágico).

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Rara.

Ecoa! Segue o seu riso dominante. Com essa alegria confiante. Inabalável liberdade. Abraça. Acolhe utopias e feridas, resgata lembranças adormecidas. Transforma tuas mágoas em águas passadas. Exala toda a fé contida. Passeia pela vida. Ri de escorregões. Sequestra abraços, invade corações e pula os portões. Mistura dentro e fora. Seja a própria obra. Faça sua arte. Pinte o sete e a ninguém revele o segredo do arco-íris, que além vai encontrar. Com-paixão, recolhe o sofrimento e livra dos tormentos, entre-linhas à brincar. Segue a reta mas nunca siga à risca, moça tão arisca. Você vai alcançar. Felicidade já é tão bem vinda. Abre o peito e dá, de dentro pra fora. Pra multiplicar.

Minha casa abandonada.

No final da rua tem uma casa. Abandonada. Escura. Empoeirada. Não me atrevo a ir lá. Se passo por perto, logo quero me afastar. Os arredores são cercados de enfeites, virtuosismos. Distrações. Apagada: a luz queimada desde o último inquilino. Saiu expulso. Arrancado de um lar que não lhe pertencia. E deixou tudo bagunçado; quinquilharias empilhadas que levaram anos pra serem retiradas. Ainda acham resquícios, catam as sobras. Mas logo jogam fora. Foi uma mudança longa. Levou-se um caminhão de lembranças... Foi trancada por dentro e a placa "Aluga-se", substituída por "Indisponível". Nada habita. Não chego a ir lá. Observo. Tento tomar coragem pra me aproximar. E se doer? Se saltar um monstro com dentes e garras? Se ele me arranca daqui e me leva pra lá? Não posso. Não tento. Não penso. E fujo. Só-corro! Minha corrida retrocede, sonho. E se procuro, não acho. Estanco.  Pé ante pé. Ando. Paro. Adentro. Me perco e lá dentro, me encontro.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mãe menina.

O coração cresce até parir amor. Busca em sorrisos encantados. Teu abrigo. Engole o mundo. Vira barriga. Nove meses pra gerar. 365 dias pra girar. Dá a luz. Força, puxa, empurra, respira. Inspirando vai. Ama. Mãe sem filho que adotou o mundo.