sábado, 18 de junho de 2011

Paradoxal

Finjo que não sinto. Acredito que não sei. Faço de conta que tudo vai terminar bem. Bambeio. Creio. E me apego. Aos fatos, fotos e afetos. Destilo essencia. E à flor da pele, sigo. Vou cada vez mais pra fora, desapegando daqui de dentro, expurgando o "novo eu". Paro pra pensar. Paro pra sentir. Paro pra dar. A vida que nasce de mim, parida e despreparada. Abuso das minhas crenças. E me agarro na fé: das preces, santinhos, terços e pulseirinhas do senhor do bonfim. Vela pra acender. Vela pra pedir. Vela pra oferecer. Vela por mim? É que eu não tenho essa mania de desistir. Se eu machuco, não é por mal. Não me ensinaram a recuar, não aprendi a fraquejar. Desaprendi a chorar. Exorcizo entre notas e versos, de um jeito inverso do que sou. Vou me apresentando todos os dias, não quero gostar. Uma menina que nunca foi boa coisa. Sempre foi diferente, nunca conseguiu sê-mar. Entre dedos, escorre; entrelinhas, descobre. Transito abaixo do que quero, acima do que fui. Sou inteiro. Nunca meio. Desafio-me. Desvendo, desvelo e relevo. Cada dia acordo e... finjo que não sinto, acredito que não sei e faço de conta que tudo vai terminar bem.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Alegria


Se apossou de mim. Numa esquina qualquer ia virando e me pegou de surpresa. Partiu antes d'eu perceber. É desfrute. Não renove, inove! Elaboro novos caminhos para tê-la mais uma vez. Perto. Desperto. E parto. Não me espanto. Surpreendo-me com a chegada, não entristeço com sua partida. É idílica. E arrebata. Com toda força que a delicadeza pode empregar. Roda a saia da vivacidade envolta dos desejos enquanto sua bainha transita pelo abismo da entrega. Seja. Conto seus encantos incontavelmente inabaláveis, faísca doce que queima até lagrimar. Gozo diante dos sorrisos que me cativam, são afetos pendurados na parede da minh'alma. São resquícios do que por um momento se eternizou belo. Foi sublime. Foi fulgaz. Foi sempre que ficou.

No playlist toca: "Consciência- o que foi... o que pode ser", (Galdino).

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Aposta

Seguro a cabeça entre as mãos. Parece que vai explodir. Tudo gira. Estou numa grande ciranda de mim mesma, dou minhas mãos. Tonteio, cambaleio, envergo e nunca quebro. Sei que gosto de testar meus limites. Não sei até onde pode ser venenoso. Bebo cada gota dessa cura maldita. São palavras. Expurgo fantasias e recolho fantasmas acolhedores. Cada passo, toque e respirar vai pro lado de lá. Não conservo nada de mim, não esqueço. Guardo cada pedacinho do que foi como presente. Vivo lembranças. Tento transformar momentos em eternos. Partilho o que não tenho e me sirvo de mim mesma. Não encontro o que vim procurar. Acho aquilo que não perdi. E mudo o trajeto. Não busco atalhos. Sempre gostei do mais difícil, do mais sofrido, do mais visceral. Grito pra dentro, assim ninguem escuta o pedido de socorro. Assim finjo não existir. Não falo em voz alta pra não se realizar. Vai que um anjo passa e sopra... Gozo de agonia e breu. Parto em duas: de um lado sou trevas, do outro sou luz. De um lado, cruel. Do outro compaixão. Daqui, fel. Dali, moscatel. Eu me seguro pra não cair, não aposto no que é certo pra não perder essa mania de adrenalinar. Sou iniciante no meu jogo. Parece que vou perder se ganhar. Espero não conseguir.

No playlist toca: "Sirena", (Sin Bandera).

domingo, 15 de maio de 2011

Querida amiga,

            melhor chamá-la assim já que nunca fostes mais que isso. Vim por meio desta carta lhe dizer: desista. Não sei bem como não ser cruel, ou até mesmo grossa mas é que... não é você. Nunca foi. Você nunca serviu pra esse tipo de coisa. Você é escada, talvez uma distração. Uma pausa! Muito boa pra se magoar mas nem tanto para tentar amar. Inúmeras vezes tentei te avisar. Sim, através de sinais, certo. Mas não percebestes? Depois de tantos tombos como ousa pensar em voar? Não tens asas, minha cara. Tens raízes. Raízes fortes. Pés no chão, praticidade, tronco forte essa tua árvore. Boa para se apoiar, boa para deitar, se esticar. Não mais que isso. E não ouses chorar porque você também não foi feita para isso. Choras feio. Tem pessoas que lagrimam lindamente. Não é teu caso. Teu silêncio grita no peito, não contens os urros, grunhidos e tapas. Tão violenta, você. Viu, agora, como o problema é sempre você. Nunca eles. Serves para amar, não para ser amada. Não é drama, não. Rapara bem. Reavalia teu caminho e enxerga se minto. Teus amigos te amam? Teus amores te correspondem? Teus pais sopram teus machucados? Por que não se contenta com o que tens? É você por você. És flor despetalada, nunca desabrochada. Poderia ser paca: tecer teu passado, presente e, provavel, futuro. Mas me atenho até aqui. É um aviso de quem te ama. Talvez da única pessoa que te quer bem. Ou, ao menos, conservada.

Atenciosamente,
eu.

No playlist toca: "Te vi venir", (Sin Bandera).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Desacelera, meu bem.

Desacelera, meu! Bem, tento pular as circunstancias e chegar ao resultado, sempre me deparo com a impossibilidade de não fazer o caminho demasiado sofrível. Notas cantam na minha janela, batem no meu peito e dão adeus. Quem se afeta por tudo, não se afeta por nada. E chega o momento que nada afeta  e implodo. Tantas feridas abertas, anestesiam a sensibilidade. Minha percepção tão defasada, minha alegria tão fingida e minha tristeza tão morta. Fazem parte de um retrato empoeirado. Suspendo! Enxergo cotidianamente em câmera lenta. Tudo lento. Ta-Lento! Emergi. Respirei. Tudo tão naturalmente novo. Tão estranhamente inédito. Volto aqui pra dentro e acendo a luz. Avisto um espelho. E me vejo: descabelada, suada, machucada. Dor. Que alegria sentir dor! Que felicidade escutá-la! Tanto tempo que, em meio a tanto barulho, o silêncio se fez tão alto. Abro a caixa de sonhos. Realejo. Revejo minha sorte. Desprendo. Deixo correr solto o destino pelas mãos. Tanto tempo dentro de uma tragédia grega que desaprendi a chorar; sou uma cachoeira. Deveria soar engraçado. Não é. E nunca foi tão feliz ser triste. Uma mordida na maçã pra voltar ao meu paraíso, um dos três desejos concedidos. Eu me perco em palavras e prateleiras. E me encontro em pó. Pureza casta que ainda não moldaram, queria voltar a ser. Calejada, acho graça das inocências que me julgam carregar no sorriso do olhar. Eu passo, acham graça. Acho graça. E me despeço. E respiro e enxergo. E revelo. Pra mim, eu me revelo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Decepção.

Despedacei. Caí de um altura de todos os metros. Recolho cada pedacinho pra tenta reinterar. Completo mas rachado, não é mais belo. Ficou fosco, perdeu o valor. Espatifei. Só vou me apegando à pegadas apagadas e mal pagas. Virei o rosto e tomei um tapa. Fui dar um beijo que nem mamãe mandou. Os monstros debaixo da cama crescem junto comigo. Se nomeiam: crueldade, traição, hipocrisia. Tão pouca fé no coração. Continuo me catando em cada esquina. Eu me perdi. Cadê o chão? Ficou bambo esse desequilíbrio. Entrou nas costas, soube como cravar. E foi ruindo. Escorrendo. Se desfez. Adeus é uma distância tão pequena de você.

sábado, 16 de abril de 2011

Desparida quero ser.

Força, puxa. Pára. Força, mais força. Pára. Dois segundos e... Força, força... Parida parei nesse mundo. Respiro dentro de um agudo choro tento me apresentar. Oi, mundo. Cheguei depois de tanto nadar lá dentro. Ora apertada, ora expansiva, dava murros e pontapés. Cortam o cordão umbilical, sou parte oficial, agora. Uma pequena parte desse universo todo. Abro os olhos. Não entendo... Peraí! Estão queimando mulheres ali... Ninguem escuta meu grito sufocado dentro da câmara de gás com mais de um milhão de judeus. Alguem escutou meu choro no pau de arara quando insistiam em perguntar onde estavam os comunistas? Como eu vim parar aqui? Por que me colocaram aqui? Pra que nascer? Só vim dar um recado que mandaram: "Amai-vos uns aos outros" mas parece que um cara já veio falar há uns dois mil anos e foi crucificado por causa disso... Eu não. Não dou jeitinho. Não me escondo mas também não me desvendo. Não dá pra me mandar de volta que nem devolução de produto no mercadinho? Não dá pra coisificar ou reinventar? É que não me mandaram com manual ou mapa pra me encontrar, só disseram "vai lá e vive". "Sobre vive". Tô tão contaminada que não tenho coragem de voltar, é torturoso por demais. Ei, cadê a humanização dos intelectuais? Tanta gente inteligente que ainda não inventaram uma máquina de sentir? De afetos, puros, apurados e despudorados. Eu não quero entender, não pedi pra entender. Não pedi pra vir ao mundo! Mas me animaram tanto e me queriam tanto. Os monstros do meu armário de 6 anos nem eram tão assustadores assim, percebo. Ao contrário do poeta quando morrer, não quero ficar. Recolham cada pedacinho meu e desapareçam com tudo, não deixem nada. Nem pó. Quero romper. Quero ir pra não voltar. E eu vou, olha que eu vou! Acabou. Mais uma vez abro os olhos e, decido ir inspirando um dia de cada vez respirando.

No playlist toca: "Perto de você", (Fernando Anitelli).